‘A gente é humilhado’, diz mulher com deficiência visual que aguarda há quase um ano há por cirurgia
Após sofrer acidente em calçada, paciente afirma esperar por prótese, exames e reabilitação
Aos 60 anos, a mocoquense Lindomar Martins enfrenta uma rotina marcada pela espera. Com deficiência visual grave e apenas um pequeno resíduo de visão, ela afirma aguardar há cerca de um ano e meio por uma nova cirurgia no ombro, além de exames considerados necessários para a continuidade do tratamento. O caso também expõe as dificuldades enfrentadas por pacientes que dependem da rede pública para acessar procedimentos de média e alta complexidade fora do município.
A situação teve início após uma queda em uma calçada, nas proximidades do Pronto Atendimento Municipal (PPA). Segundo Lindomar, ela caiu em um buraco existente no local e sofreu fraturas nos dois braços, além do rompimento de tendões do ombro.
As cirurgias realizadas não resolveram o problema. De acordo com a paciente, uma das placas ortopédicas implantadas não apresentou a consolidação esperada, tornando necessária uma nova intervenção. A indicação médica, segundo ela, é pela colocação de uma prótese no ombro, procedimento que não é realizado na região e depende de encaminhamento para um serviço especializado.
Enquanto aguarda a definição da cirurgia, Lindomar afirma que também espera pela realização de uma ressonância magnética solicitada há cerca de 18 meses. Segundo seu relato, toda a documentação foi entregue à rede pública de saúde, mas ela diz não ter recebido informações sobre o andamento do processo.
“O médico pegou e me deu um pedido de ressonância, isso faz um ano e meio. Até hoje eu não fiz ressonância. Então é um descaso muito grande”, pontua a aposentada.
A demora, segundo especialistas em saúde pública, pode comprometer a recuperação funcional de pacientes com lesões ortopédicas complexas, sobretudo quando o tratamento depende de exames, reavaliações e procedimentos em centros de referência.
Além da espera pela cirurgia, Lindomar afirma enfrentar outro obstáculo: o acesso ao tratamento de reabilitação que realiza em Ribeirão Preto desde 2014. Ela relata que o transporte utilizado anteriormente fazia o embarque em sua residência, mas passou a exigir que os pacientes se apresentem em um ponto de encontro durante a madrugada.
Com deficiência visual severa, ela diz não ter condições de realizar esse deslocamento sozinha. Sem familiares disponíveis para acompanhá-la, afirma que passou a ter dificuldades para manter a frequência nas sessões de reabilitação, consideradas fundamentais para preservar sua autonomia.
“Agora que eu caí, fiquei com mais medo ainda e, com isso, eu tô entrando em depressão de novo… porque eu fico a maior parte dentro de casa. Sair de casa só em último caso mesmo”, desabafa.
O impacto também alcançou a saúde emocional. Lindomar relata que, após o acidente, desenvolveu medo de sair de casa e voltou a apresentar sintomas de depressão, consequência das limitações impostas pelas lesões e da incerteza sobre o tratamento.
Segundo a Secretaria de Estado da Saúde, o Departamento Regional de Saúde (DRS) de São João da Boa Vista informou, no dia da reportagem, que a paciente é acompanhada na especialidade de ortopedia pelo Hospital Regional de Divinolândia e que possuía consulta prevista para reavaliação no Ambulatório Médico de Especialidades (AME) de Casa Branca.
Na sexta-feira (31), após a paciente informar ao TVD Notícias que ainda não havia recebido a confirmação do agendamento, a reportagem voltou a procurar os órgãos responsáveis. Desta vez, a Secretaria Municipal de Saúde de Mococa informou que os agendamentos são realizados pelo sistema SIRESP, do Governo do Estado, e que acionaria a regulação para verificar a situação.
Em seguida, o DRS confirmou oficialmente que a consulta foi agendada para o dia 11 de agosto, às 11h30, no AME Casa Branca, com um médico ortopedista.